

Encontra-se no livro Introdução ao Conhecimento Logosófico (ISBN: 85-7097-003-X).
Encontra-se na Coletânea da Revista Logosofia – Tomo 1 (ISBN: 85-7097-052-8).
Encontra-se na Coletânea da Revista Logosofia – Tomo 2 (ISBN: 85-7097-060-9).
Encontra-se no livro Curso de Iniciação Logosófica (ISBN: 85-7097-059-5).Entre a arte de ensinar e a arte de aprender existe uma grande diferença, não obstante acharem-se ambas intimamente vinculadas. Em geral, quem começa a aprender o faz sem saber por quê; pensa que é por necessidade, por uma exigência de seu temperamento, por um desejo ou por muitas outras coisas, às quais costuma atribuir esse porquê. Mas quando já começa a vincular-se àquilo que aprende, vai despertando nele o interesse e, ao mesmo tempo, reanimam-se as fibras adormecidas da alma, que começa a buscar, chamando ao estudo, os estímulos que irão criar a capacidade de aprender.
Porém, que é o que o ser aprende, e para que aprende? Eis aqui duas indagações às quais nem sempre se podem dar respostas satisfatórias. Aprende-se e continua-se aprendendo, adquirindo hoje um conhecimento e amanhã outro, de igual ou de diversa índole, Primeiro se aprende para satisfazer às necessidades da vida, tratando de alcançar, por meio do saber, uma posição, e solucionar ao mesmo tempo muitas das situações que a própria vida apresenta. Quando se completa a medida do estudo, parece como se na mente se produzisse uma desorientação: o universitário, ao conquistar seu título, aquele outro ao culminar sua especialização. Enfim, quando essa vida de estudos está terminada, começam as atividades nas diferentes profissões, o que paralisa a atividade anterior da mente dedicada ao estudo; muitos até chegam a esquecer aquela constante preocupação que antes tinham, de alcançar cada dia um conhecimento a mais, encontrando-se como os que, tendo finalizado o percurso de um caminho, não sentem a necessidade de dar um passo além, por não acharem o incentivo de um objetivo capaz de o propiciar. Eis aí uma das causas de onde provém tanta desorientação nos seres humanos.
De outra parte, os que, além dos estudos da profissão aprendem outras coisas, o fazem muitas vezes sem ter disso verdadeira consciência. Acumulam este, esse e aquele conhecimento, mas depois – salvo exceções – não sabem o que fazer com eles; não sabem usá-los em seu próprio bem, nem no bem dos demais. Assim é como vêm aprendendo ao acaso, em uma e outra parte, sem ter um guia que os leve para uma meta segura e lhes permita fazer de tudo uma aprendizagem útil para si mesmos e para seus semelhantes.
Ao dar a conhecer seus ensinamentos, a Logosofia manifesta que existe uma imensidão desconhecida para o homem, na qual este deve penetrar. Dá a conhecer, além disso, que enquanto se interna nessa imensidão que é a Sabedoria, isto é, enquanto aprende, pode também ensinar, porque a arte de ensinar consiste em começar ensinando primeiro a si mesmo, ou, dito de outro modo, enquanto de uma parte o ser aprende, aplica de outra esse conhecimento a si mesmo e, ensinando a si mesmo, sabe depois como ensinar aos demais com eficiência.
Dissemos no começo que a arte de ensinar é muito diferente da arte de aprender. Com efeito, tratando-se do conhecimento transcendente, que é o que guia para o aperfeiçoamento, não se pode ensinar o que se sabe, se, ao fazê-lo, não vai refletida, como uma garantia do saber, a segurança que cada um deve dar com seu próprio exemplo. Eis aí, justamente, onde começa a tornar-se difícil a arte de ensinar, porque não se trata de transmitir um ensinamento, ou de mostrar que se sabe isto ou aquilo; quem assim fizesse, se converteria em um simples repetidor do ensinamento, em um autômato, e seu labor careceria de toda eficácia. Já é outra coisa, quando através da palavra de quem ensina, coincidente com seus atos, vão se descobrindo qualidades relevantes; e outra coisa é, também, quando, no que escuta e aprende, vai se manifestando a capacidade de assimilação; então, o que aprende, aprende de verdade, e quem ensina, ensina com consciência.
Um ensinamento pode ser transmitido bem ou mal pelo que ensina, mas, o fato de transmiti-lo mal não tem porque implicar má intenção ou má vontade; comumente é transmitido de forma errônea, por não o haver entendido bem, vivido e incorporado a si mesmo. Quem faz isto não possui, certamente, o domínio do ensinamento, que permite não esquecê-lo mais; e está longe de ser como aquele que, de posse de uma fórmula, pode reproduzir a qualquer momento o conteúdo da mesma. Esquece o ensinamento quem não teve consciência dele e, por tal causa, acha-se na mesma situação do que aprende. Estas particularidades da arte de ensinar e da arte de aprender devem ser tidas sempre muito em conta.
Para cultivar estas artes, quando se aprende deve-se sempre situar a si mesmo na posição mais generosa, qual seja a de aprender sem mesquinhez, a de aprender para saber dar, para saber ensinar, e não com objetivos egoístas, fazendo-o para usufruto próprio, exclusivo, que é, em último termo, a negação do saber.
A Sabedoria logosófica prodigaliza-se, por isso, aos que mais tarde saberão ensinar, aqueles que terão em conta, ao fazê-lo, todos os detalhes que, correntemente, passam inadvertidos e depois travam o entendimento dos seres.
Quem é generoso ao aprender, é generoso ao ensinar; mas nunca terá que se exceder nessa generosidade, pretendendo ensinar antes de haver aprendido.
É mister conhecer a fundo a psicologia humana, para descobrir todos os subterfúgios que existem no complexo e misterioso mecanismo mental do homem.
Quando se inicia a heróica empresa do próprio aperfeiçoamento, é necessário acostumar-se a caminhar com firmeza, sem vacilações nem desacertos, buscando sempre a segurança no próprio conhecimento, e, quando aquela não existir, este deve ser cultivado, para que se consiga obter esses frutos que fazem, depois, a felicidade interna.
Falando já do conhecimento logosófico, deve-se advertir que, ainda que pareça, este não é igual, nem de longe, ao conhecimento comum. Tem uma particularidade que o distingue e que cada um adverte, comprova e confirma, à medida que vai realizando seu processo de evolução consciente. A referida particularidade manifesta-se no fato de que estes ensinamentos servem para ser usados na própria vida; aplicando os conhecimentos que deles emanam em uma observação diária de si mesmo, obtém-se uma superação constante, que leva a compreender, mais tarde, o caráter universal do Saber logosófico. Isto deve ser recordado a todo momento, a fimde tratar o ensinamento logosófico como ele é: algo novo para o próprio saber individual, algo que deve tomar-se com todo carinho, com toda dedicação, sem descuidar jamais nenhuma de suas indicações.
O conhecimento transcendente, ou seja, o logosófico, expressa tudo quanto pode o homem conhecer, ao internar-se nos arcanos da Sabedoria. É a tocha convertida em luminária que passando de mão em mão, através das gerações, continuará iluminando a vida dos que buscam no aperfeiçoamento de si mesmos a própria inspiração; inspiração que também surge observando os sábios e nobres exemplos que a história tem registrado e que, igualmente, o coração humano registra, quando presencia todos aqueles casos em que um homem surge acima dos demais, mostrando os caracteres inequívocos de uma estirpe superior.
A Logosofia tem, pois, a missão de arrancar o homem dos planos inferiores de consciência em que se encontra, para levá-lo gradualmente, passando por processos alternados de superação, a conquistar o domínio consciente de suas possibilidades humanas. É então quando deixa de ser um homem comum, um ser comum, para converter-se em ser superior, capaz de transmitir seus conhecimentos aos demais e auxiliar aos que carecem de vontade para poder sobreviver às penúrias que devem suportar na vida.
Quantas vezes não temos ouvido um ser ou outro dizer que desejaria encontrar a si mesmo? Acaso, estas palavras, um tanto angustiadas, não dão a entender que se perderam de vista ou que se extraviaram, desde o momento em que não podem encontrar-se? Nestas ou em condições parecidas acodem muitos à fonte logosófica. Não seria o caso de perguntar aqui, como pensam encontrar-se? Os que buscam a si mesmos têm sequer uma vaga suspeita do que em verdade são? Reconhecer-se-iam ao encontrar-se? Teriam formado uma imagem exata daquele a quem buscam? Porque tem sucedido, mais de uma vez que, quando chega a oportunidade de apresentar-lhes o ausente, exclamam ante ele: "Este não sou eu, que esperança!", e continuam logo a busca, cada vez mais infrutífera. O que acontece, simplesmente, é que forjaram para si uma falsa imagem do que pessoalmente crêem ser, e o resultado é que cada um busca, em vão, ao que sua ilusão adornou generosamente de qualidades e virtudes. Ninguém quer ser, pois, aquilo que é na realidade; daí a desilusão ao encontrar-se.
Em presença desta realidade, a Logosofia permite, com seus conhecimentos, realizar um claro discernimento do problema, e auxilia, com elementos de juízo de grande valor, a quem anela superar-se, inclinando-o para a tarefa de realizar um processo consciente que culminará ao converter-se naquilo que antes havia imaginado, sem que na realidade o fosse. Desse verdadeiro encontro consigo mesmo surge o despertar promissor de uma vida fecunda, destinada a cumprir altos desígnios de bem.
A vida é o campo experimental onde têm lugar as lutas e onde cada um vence ou é derrotado; mas é, também, o cenário onde o espírito se tempera verdadeiramente e onde, pouco a pouco, com vontade e entusiasmo grandes, vai se lavrando um novo e elevado destino.
Tudo isto, naturalmente, convida a refletir com serenidade. Cada um terá que tomar a decisão de seguir firmemente sob a direção do conhecimento logosófico, ou desistir dele por inércia, arrastado para outros caminhos. Se se toma a decisão de seguir, é necessário caminhar sem se deter, estudando, analisando, observando e tirando sempre, de cada observação, felizes conclusões.
Em todas as épocas que a humanidade atravessou, nada deu maior categoria e prestígio aos povos civilizados do que o desenvolvimento de sua capacidade de estudo; capacidade que foi tanto mais ampla quanto mais oportunidades eram oferecidas à inteligência para sua livre manifestação.
Nenhum povo teria podido sobressair e ocupar um lugar de privilégio no conceito das nações, nem figurar entre os mais destacados da história, se não tivesse existido esse esforço louvável da inteligência, que edificou tantas obras, esclareceu tantas mentes e propiciou tantos exemplos.
A força moral das nacionalidades surge sempre da potência de sua cultura e da ilustração de seus pensamentos. A capacidade de estudo cresce ou decresce segundo seja o estímulo que receba para seu desenvolvimento. Nenhum labor deveria ser mais respeitado – já que não remunerado – do que aquele que a inteligência realiza, pois só a ela se deve a soma dos avanços obtidos em todas as ordens da vida.
A decadência dos povos sobrevém quando estes são privados do maior dos estímulos que o pensamento dos homens sempre reclamou: a liberdade.
Em todos os tempos, desde que existe o uso da razão, a inteligência humana se rebelou contra tudo o que pretendeu restringir ou regulamentar seu exercício. Falamos das inteligências bem inspiradas, cuja elevação de propósitos jamais traiu a esperança de seus semelhantes. Elas foram as que, em todas as épocas da história, fecundaram gerações inteiras com seu talento. É bem sabido que, para as idéias não construtivas ou, melhor ainda, para aquelas que se caracterizam por sua origem exótica e extemporânea, estão aí as leis e, por trás delas, os magistrados, que haverão de julgar essas idéias, caso o rebaixamento moral ou social a que tiverem chegado o faça necessário.
Não se pode negar que o que engrandece uma nação, mais do que suas riquezas materiais, é o concurso e o esforço dos homens de inteligência. No respeito às prerrogativas da consciência humana, na preponderância dos valores individuais e na justa estimação dos conceitos é que reside, invariavelmente, a melhor prova de sua independência e soberania.
O sentimento de nacionalidade surge, precisamente, da capacidade de estudo e de trabalho de uma nação. O conceito de pátria exalta os deveres do cidadão, resguardando a invulnerabilidade de sua terra natal. A nação constitui um corpo jurídico e social; a pátria é a alma desse corpo, encarnada no povo, e é a força moral que sedimenta a tradição e forja o ímpeto indomável do sangue.
É necessário que as massas incultas se instruam e se eduquem, para que não formem um peso morto político e social para a nação. As melhorias concedidas ao assalariado devem consistir, mais que nada, em estimular o estudo e propiciar os deveres morais e sociais, que geralmente os seres de condições inferiores evitam. Os direitos e os deveres são dois trilhos paralelos que, sem nunca se juntarem, fazem avançar em marcha ascendente a máquina do progresso.
A que glória maior pode um país aspirar que à de sobressair entre os primeiros, por sua contribuição ao melhoramento humano, e à de contar, em seu seio, com capacidades que, ultrapassando as melhores, façam surgir por todas as partes a necessidade de consultá-las como autoridades reconhecidas no mundo inteiro?
Quantos esforços já não vimos malograr-se em pleno desenvolvimento, por não encontrarem o ambiente propício nem o alento que tanto contribui para avivar a chama do entusiasmo e do empenho? Toda idéia nova nasce na mente do homem, em geral sem outro amparo que a sua própria força moral. Duras e penosas são as horas que se seguem a seu nascimento; defende-se a idéia como se defende a própria vida; por ela se luta e por ela costumam ser experimentados os mais cruéis momentos, sobretudo se, triunfando contra a violência dos insensatos, contra a indiferença ou a inveja da maioria, ela ganha corpo e se expande, beneficiando generosamente a espécie humana.
Propiciar, pois, a capacitação por meio do estudo, exaltando a consciência em manifestações amplas do pensar e do sentir, é realizar uma obra fecunda, e é o melhor investimento que o capital político, social e espiritual de um povo pode fazer, se quer alcançar os cumes da glória.
O ensino que se ministra à infância e à juventude não requer outra técnica nem outra preocupação que a de estar bem aplicado nas matérias lecionadas, em que a docência seja exercida com a dedicação indispensável exigida pelo caráter de que se reveste essa mesma atividade docente, ainda que nenhuma responsabilidade tenha o professor ou o mestre pelo fato de este ou aquele aprendiz não se aplicar, fracassando em seus estudos. Aqui termina o alcance da docência e, talvez, até a relação entre educador e aluno, pois é comum, após a habitual freqüência às aulas, que cada um vá para o seu lado sem que ambos voltem, salvo raras exceções, a se encontrar.
A vantagem de ensinar às crianças reside no fato de que a elas se pode corrigir e até repreender, segundo seja o caso, com absoluta despreocupação quanto às suas reações derivadas do amor-próprio, tão pronunciado no ser humano. As pessoas adultas têm, além disso, a mente quase sempre ocupada com mil assuntos distintos e, por outro lado, não freqüentam as aulas no horário da manhã ou da tarde, como as crianças, mas à noite, sendo então de se prever que tenham acumulado todas as fadigas do dia, o que atenta, queira-se ou não, contra o melhor propósito ou disposição de escutar, estudar e aprender. Vemos repetir-se esta circunstância no fato de que, apesar de serem os jornais matutinos bem nutridos, e pequenos os seus caracteres tipográficos, sua leitura não apresenta nenhuma dificuldade, realizando-se às vezes, como vulgarmente se diz, “de cabo a rabo”; por outro lado, os da tarde se vêem na necessidade de expor em grandes títulos as notícias ou novidades que querem informar ao público leitor, pois que, não fosse assim, correriam o risco de ninguém os ler, pois as pessoas, ao declinar o dia, não se acham em condições de prestar maior atenção a leituras condensadas em caracteres pequenos. Nessas horas, buscam-se entretenimentos alegres ou de outro gênero, na esperança de descongestionar a mente com motivos que manifestamente distraiam o pensamento.
Daí que o adulto, o ser que já ultrapassou a época dos sonhos quiméricos, quando mostra ardentes anelos de superação e em verdade quer desfrutar mais prontamente as prerrogativas que a ampliação do saber confere, deva se dispor, com todas as forças de sua alma, para levar em frente com digno entusiasmo e empenho a tarefa de cultivar suas faculdades. Convém, por conseguinte, se não existem sinais que a evidenciem, começar por criar a vocação para o estudo, para a ilustração e o aperfeiçoamento. Essa vocação pode ser com certeza criada, se, auscultando o sentir, percebe que surgem aspirações de melhoramento paralelamente ao reconhecimento da própria mediocridade, a qual se há de querer transcender, distanciando-a cada dia mais das condições superiores cuja conquista se tenta.
Deve-se entender por vocação o pensamento que preside e anima o esforço em tenaz correspondência com a vontade, que em nenhuma hipótese deve decair, uma vez definido e preparado o caminho a seguir. Ao mesmo tempo, deverá formar-se um juízo bem acabado sobre as preferências internas a respeito do saber, ou seja, se tão-somente se busca este saber para adquirir uma certa ilustração, se é cultivado nada mais que para saber, ou se é erigido como uma necessidade permanente do espírito e como finalidade primordial da existência. Em tal caso, o ato de estudar e aprender transforma-se fundamentalmente: reveste-se agora de todas as características da fecundidade, no natural exercício da função criadora do pensamento.
No primeiro caso, o ser humano somente busca melhorar suas perspectivas, fazendo mais cômodo o lugar que ocupa na vida de relacionamento. Sabe-se como a ignorância, que é ausência de conhecimentos e falta de cultura, limita e dificulta a maneira de viver e os meios de atuar, já que, não sabendo por esta causa como ser mais, o inapto haverá de se conformar com aquilo que licitamente e por justiça lhe é possível ter. Porém, melhoradas suas condições pela instrução e pelo esforço na sua aplicação, é lógico que experimente o prazer inefável de seu adiantamento espiritual e material. Entenda-se espiritual, como bem dissemos primeiramente, porque é coisa muito certa que toda claridade que se consiga fazer penetrar na mente sempre tende a repercutir no sentimento, e este, por reflexo, agita o espírito, atraindo, em conseqüência, a atenção própria para o que surge acima do material, enobrecendo a vida.
É claro que isso não impede que, com o tempo, voltem os instintos, de natureza inferior, a ter mais voz e participação, sublevados talvez pela sensação de perder sua força dominante ou seu predomínio sobre as preferências da vontade. É isto, portanto, uma questão de temperamento, e enquanto não participe a inteligência do conhecimento que a evolução consciente encerra em suas amplas perspectivas humanas, estaremos sempre expostos a ser incitados pelas debilidades do caráter e a ceder aos afagos da vida material, que em nenhum momento terão deixado de opor resistência às resoluções elevadas do juízo em suas máximas aspirações de aperfeiçoamento.
No segundo caso assinalado, ou seja, quando se cultiva o saber simplesmente por cultivar, mais propriamente para satisfazer uma vaidade enquanto se permanece totalmente alheio à realidade e à força viva do conhecimento, o ser pode conseguir uma vasta ilustração e até chegar a colocar-se entre os que se destacam nas letras, nas artes, na política, nas finanças e em todos aqueles ramos do saber comum em que se elogia e se enaltece a personalidade. Isto, porém, não evita que ele sinta muitas vezes uma nostalgia indefinida, um vazio interno que não se consegue preencher com nada, e que é resultado de tudo quanto foi construído sem objetivos perduráveis. Isto ocorre com aqueles que estão inteiramente absorvidos em compromissos sociais ou na atenção a seus interesses materiais, esquecendo que a vida tem outro conteúdo e que é precisamente nele onde reside o porquê da existência.
Para conhecer esse conteúdo, é necessário internar-se em si mesmo tanto quanto o permita a própria evolução. Foram muitos os que em todos os tempos empreenderam esta tarefa, em sua maior parte levados pela crença de poderem desentranhar num curto prazo os mistérios que se ocultam nas profundezas da criação humana. A imensa maioria voltou dessa incursão, malogradas as esperanças e quebrantados os esforços, trazendo como saldo a decepção e o desconsolo. Tal é a conseqüência das investigações infrutíferas, pois se desconhece a forma de realizar tão magna empresa e não se leva em conta, sobretudo, que os principais fatores que contribuem para seu êxito devem ser encontrados nos umbrais da própria vida, ali onde nasce tudo que cada ser possui de verdadeiro e puro. Entretanto, isso não impediu que outros, em número igual ou superior, se dispusessem uma e outra vez a empreender idêntica incursão nas regiões do enigma, vamos chamá-la assim, já que outro não pode ser o nome de uma realidade existente além da realidade comum e que, constantemente, exerce uma atração quase irresistível sobre o temperamento sensível da natureza humana.
A voz sábia, a voz que pronuncia a sublime linguagem da inteligência criadora, é a que ensina o caminho sem extraviar o pensamento. Quando o ser pretende escutar essa voz com os ouvidos do egoísmo, da fatuidade ou da insensatez, corre o risco de se perder, pois a própria cegueira impede toda orientação, confundindo-se freqüentemente as direções, de modo que se toma o caminho desandado como um avanço e ainda se chega a desconhecer ou esquecer os pontos de referência que serviram para marcar o rumo.
E vejamos agora o caso em que os seres se dispõem a encarar a questão básica do conhecimento substancial ou essencial da existência humana.
Sabe-se que essa inquietude surge como um imperativo da consciência, como uma necessidade da alma, e, desde que se manifesta como tal, começa, tanto no homem como na mulher, o que poderíamos chamar de a odisséia do espírito. Livros e mais livros passam pela retina mental, absorvidos pelas ânsias de encontrar neles as chaves misteriosas com as quais seja possível decifrar o enigma. A busca continua em qualquer lugar onde se encontre um anúncio que, sugestivamente, convide a realizar por essa via a tentativa de alcançar tal meta. Não obstante, pouco ou nada é o que se obtém no sentido de encaminhar o pensamento pelo verdadeiro e único caminho que conduz à solução do grande problema.
Quando os aspirantes ao conhecimento iniciador das altas verdades acudiam às fontes onde se ministrava o ensinamento criador, eram instruídos previamente acerca de como deviam liberar a mente de todo preconceito e dispor-se, com humildade e limpeza de alma, a receber a luz que haveria de iluminar suas inteligências ávidas pelo saber superior. Isso prova, de modo definitivo e convincente, que nada deve merecer um conceito de seriedade e estima maior do que esta ciência do pensamento supremo que encarna a vida universal e que, por fim, aprofunda a vida humana até os seus rincões mais recônditos e obscuros.
Como é possível, então, pensar que conhecimentos de tal nível hierárquico haverão de ser obtidos como um dom do céu, sem que para isto se requeira aplicação nem esforço algum? Não se pode conceber seja tendência natural a de consentir que o próprio entendimento atribua ou conceda, melhor dizendo, tão pouca importância a este gênero de investigações. Geralmente se utiliza para elas o escasso tempo que resta depois de terminadas as atividades do dia e, ainda assim, costumam ser relegadas a segundo plano, para se dar preferência às habituais distrações. Há, inclusive, os que presumem que fazem um favor se, prestes a cultivar o conhecimento transcendente, colaboram com outros em tão fecundo labor, pois não pensam que, enquanto se aperfeiçoam e se beneficiam, contribuem para fazer mais efetiva a obra que se desenvolve para o bem de todos.
Deve-se admitir, pois, que foi, é e seguirá sendo a tarefa mais difícil e delicada esta de ensinar, a cada inteligência, a forma de multiplicar sua força expansiva e penetrar, como dissemos, até os rincões mais recônditos e obscuros da vida humana. O exercício de tão alta docência é, sem discussão alguma, uma arte em que estão resumidas as virtudes mais elevadas: a sabedoria, considerada como a maior de todas, por conter a essência das demais; a paciência, que auspicia os processos do ensinamento sem forçar nem alterar as funções do entendimento, propiciando, mais propriamente, que este se acentue de forma natural; a abnegação, que preside os sentimentos e tem um lugar de honra no coração dos grandes, que também fortalece o espírito e permite o culto do sacrifício a serviço do semelhante. Poderiam ainda ser enumeradas outras que, por sua natureza, servem à vontade posta a serviço de tão elevada docência; entretanto, haverão de bastar as enunciadas, para que se possa julgar o conceito que deve merecer quem, tirando horas do repouso depois de longas jornadas de intenso labor, dedica-as generosamente, sem exigir nada de ninguém, a ensinar com a palavra e com o exemplo a realização da mais justa e nobre das aspirações humanas.
Para terminar, será necessário acrescentar que a arte de ensinar encontra sua máxima expressão na alma daqueles cuja vontade de aprender faz possível que o bem que recebem e o saber com que se instruem sejam uma completa e efetiva realidade para seu aperfeiçoamento integral.
1. Iniciaremos a exposição deste Curso perguntando por que razão a cultura vigente – ocidental ou oriental – apresenta, em todas as partes, sintomas inconfundíveis que prenunciam sua inevitável decadência. A resposta é clara, simples e unívoca: porque falha pela base. E a que se deve o fato de ela falhar pela base? Às seguintes causas:
a) Não foi nem é capaz de ensinar ao homem a conhecer a si mesmo.
b) Não lhe ensinou a conhecer o mundo mental que o rodeia, interpenetra* e influi poderosamente em sua vida.
c) Não lhe ensinou a compreender, amar e respeitar o Autor da Criação, nem a descobrir sua Vontade através de suas Leis e das múltiplas manifestações de seu Espírito Universal.
2. O fato de não se ter ensinado ao homem a conhecer sua vida interna, plena de recursos e energias para quem sabe aproveitar tão imponderável riqueza, tem sido a causa que o faz ceder, sem maior resistência, à tentação de fundir-se na multidão anônima, consumando-se assim a perda de sua individualidade.
─────
*N.T.: O autor adotou, no texto original em espanhol, o neologismo “interpenetrar”, ao conferir-lhe o sentido de “estar penetrado em, existir dentro de, constituir-se no espaço interior de”. O mesmo valor neológico está presente no texto traduzido ao português.
─────
3. Desde os alvores da atual civilização, foram se somando, dia após dia, os que nenhum esforço fazem para superar sua inércia mental e volitiva. Das faculdades de sua inteligência,** só funcionam com preponderância a imaginação e a memória. As demais trabalharam e trabalham só por necessidade ou por alguma premência, observando-se sempre uma acentuada insuficiência, devido à sua habitual inércia. Estamos nos referindo à maioria dos seres, ao homem que não organizou seu sistema mental de modo que todas as faculdades de seu mecanismo inteligente funcionem, alternada e ativamente, no ofício construtivo que devem desempenhar.
4. A ciência logosófica foi criada para remediar esse lamentável descuido, esse vazio incomensurável que já transtornou não poucos juízos, levando a humanidade à desorientação e ao mais agudo pessimismo.
─────
**Ver Logosofia. Ciência e Método, do autor.
─────
5. A Logosofia é uma nova mensagem à humanidade, com palavras plenas de alento, de verdade e de clara orientação. Encerra uma nova forma de vida, forma que move o homem a pensar e a sentir de outra maneira, graças ao descobrimento logosófico de agentes causais, que, ignorados antes por ele, se manifestam agora à vista de seu entendimento, de sua reflexão e de seu juízo, da mesma forma que à sua sensibilidade. Com efeito, embora singelamente enunciado e sem ostentação alguma, como é próprio de todas as grandes verdades, somos plenamente conscientes da incalculável transcendência que o conhecimento desses fatores – até agora incógnitos geradores de todas as formas humanas de vida – haverá de assumir para o esclarecimento do mistério do homem, no dia em que ele despertar para essa realidade e comprovar a verdade de sua existência, através de cada uma de suas manifestações psicobiológicas. Só então o homem poderá fazer uso consciente de seu livre-arbítrio, resgatar sua vida – aprisionada por seus próprios erros e pelos erros dos demais – e reconstruí-la, graças às leis que regem os processos inteligentes da Criação, com um critério novo, espiritual e humano, testamenteiro imaterial de sua felicidade.
6. Ciência e cultura ao mesmo tempo, a Logosofia transcende a esfera comum, configurando uma doutrina de ordem transcendente. Como doutrina, está destinada a nutrir o espírito das gerações presentes e futuras com uma nova força energética, essencialmente mental, necessária e imprescindível para o desenvolvimento das aptidões humanas.
7. São atributos desta fecunda doutrina: a elevação de miras, a amplitude na concepção das possibilidades do homem, sua autêntica veracidade e a vigência permanente de suas razões medulares.
8. A cultura logosófica é inconfundivelmente singular: não contém um só elemento estranho à originalidade de sua fonte, por ser original a concepção que a sustenta.
Uma realização da Fundação Logosófica Em Prol da Superação Humana